Processo de Reconciliação Terapêutica (Unidade de Internamento de Convalescença – Hospital Nossa Senhora da Assunção – Seia)

Gestão de Farmácia Hospitalar


Instituição

ULS GUARDA , E.P.E.

Autores:

Carmo Teixeira e Patrícia Capucho

O que foi feito ?:

Em Fevereiro 2018 iniciou-se o processo de Reconciliação Terapêutica (RT) na Unidade de Internamento de Convalescença do Hospital Nossa Senhora da Assunção – Seia, pertencente à Unidade Local de Saúde (ULS) na Guarda, E.P.E. Esta unidade faz parte da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e tem 16 camas para doentes em recuperação médica e internamento com duração máxima de 30 dias. A RT é um processo multidisciplinar centrado no doente, que consiste na comparação entre a medicação seguida pelo doente, prévia à sua hospitalização, e a prescrição hospitalar, permitindo a deteção de eventuais erros de medicação existentes, denominados discrepâncias. Esta é realizada nos pontos vulneráveis e críticos de transição de cuidados, nomeadamente nas admissões, nas transferências entre serviços e nas altas. Incluíram-se no circuito do medicamento da farmácia todos os medicamentos trazidos para o hospital pelos doentes, que até então ficavam sob a responsabilidade da equipa de enfermagem do serviço. O farmacêutico Hospitalar (FH) passou a estar mais presente no serviço de convalescença, o que facilitou a comunicação e colaboração com os outros profissionais de saúde (médicos e enfermeiros) e com o doente. O FH realiza uma entrevista ao doente, na sua admissão para recolher toda a informação da sua medicação e problemas de saúde e na alta para o informar, educar e aconselhar, entregando-lhe a “Lista de Medicamentos do Doente” a realizar no domicilio.

Porque foi feito ?:

O objetivo principal deste projeto é promover o uso seguro dos medicamentos, de modo a que o medicamento certo, seja administrado ao doente certo, na dose certa, no momento certo, com a informação certa e documentação certa. Pretende-se:
– Otimizar a medicação, trabalhando em colaboração com equipas multidisciplinares, implementando práticas seguras no âmbito da reconciliação terapêutica permitindo reduzir a omissão, duplicação e a prescrição incorreta de medicação na admissão, nas transições e transferências de cuidados, reduzindo os erros e incidentes com a medicação;
– Ajudar o doente a proteger-se de danos causados por medicamentos, dando-lhe a informação e documentação necessária sobre os medicamentos e tratamento a efetuar. Sensibilizar o doente sobre a importância de conhecer, verificar e questionar os profissionais de saúde sobre a sua medicação.

Como foi feito?:

Na admissão do doente no serviço de convalescença, o primeiro passo é a realização da entrevista farmacêutica entre o doente e o FH, de modo a recolher toda a informação referente à sua doença e terapêutica que realiza até ao momento, incluindo medicamentos não sujeitos a receita médica, produtos naturais e suplementos alimentares. Na recolha desta informação, utilizam-se ainda outras fontes de informação, tais como, lista de medicamentos entregue pelo próprio doente ou cuidadores, os próprios medicamentos entregues pelo doente (“saco medicamentos”) e informação disponível nos sistemas informatizados. Durante a entrevista, há a recolha de outras informações essenciais, como a existência de alergias a medicamentos, comorbilidades, avaliação da adesão do doente à terapêutica e forma de uso dos medicamentos, e ainda o recurso à automedicação, procedendo-se à elaboração da lista completa de medicamentos pré-hospitalares do doente. Esta lista é colocada numa pasta partilhada e pode ser consultada pelo médico e enfermeiro. Foram incluídos todos os doentes internados após o dia um de fevereiro.
Os medicamentos trazidos para o hospital pelos doentes e que não estão disponíveis no hospital são levados pelo FH para a farmácia, onde são identificados e rotulados ( o rótulo tem a cor cinzenta de fundo para que estes medicamentos não se misturem com os do hospital) de modo a assegurar a sua identificação e integridade até ao momento imediatamente antes da sua correta administração. Estes integram o circuito do medicamento e são distribuídos por dose individual diária.
No processo de reconciliação terapêutica após ter obtido a lista completa da medicação pré-hospitalar do doente, vamos compará-la com a prescrição ativa após admissão, analisá-la e resolver as discrepâncias encontradas. Para isto, criou-se uma “Ficha de Reconciliação Terapêutica” onde o FH regista os dados relevantes do doente e toda a medicação pré e pós-admissão. Esta ficha é colocada no processo do doente. As discrepâncias encontradas são discutidas e resolvidas com os médicos prescritores, de forma que seja selecionada a medicação mais adequada à situação clínica do doente e todas as alterações efetuadas são registadas no processo clinico do doente. Este tem sido um trabalho de equipa entre FH, médicos e enfermeiros.
Na preparação da alta do doente, em reunião multidisciplinar – médico, enfermeiro, assistente social, FH – que se realiza semanalmente no serviço, é analisada a medicação do doente, lista de medicamentos do doente na admissão e medicação prescrita no internamento. O médico é quem no final atualiza a “lista de medicamentos do doente” onde se registam todos os medicamentos utilizados pelo doente a realizar no domicílio. Esta lista depois de imprimida é verificada e assinada sempre pelo médico.
Na alta do doente, FH vai ao serviço onde entrega a lista de medicamentos ao doente, de forma personalizada, assegurando-se que o doente e os seus cuidadores recebem a informação certa sobre a utilização dos seus medicamentos, compreendendo tudo o que foi dito, promovendo assim o aumento da adesão do doente à terapêutica. Reforça-se ainda a informação relativamente aos medicamentos de alerta máximo, uma vez que possuem risco aumentado de provocar dano significativo ao doente em consequência de falhas no seu processo de utilização (canetas de insulina, anticoagulantes, metotrexato).

O que se concluiu?:

Com a participação dos doentes e seus cuidadores, com uma maior intercolaboração e comunicação entre profissionais de saúde e com a implementação de boas práticas na gestão clinica do medicamento, iremos obter maior segurança na medicação com benefícios para o doente. Uma vez que o projeto é muito recente não temos ainda dados estatísticos, no entanto pensamos que as intervenções implementadas poderão contribuir para:
– Redução de danos causados pelos medicamentos durante as transições e transferências de cuidados de saúde.
– Minimizar o risco de problemas relacionados com a medicação e redução de custos para o doente e instituição hospitalar.
– Obter um doente mais informado e integrado nas questões da sua saúde, contribuindo para o aumento da segurança na utilização dos medicamentos.

O que fazer no futuro?:

O presente projeto foi aplicado na Unidade de Convalescença e no futuro pretende-se implementar em outros serviços de internamento da ULS-Guarda.
Achamos ser necessário um compromisso dos Sistemas de Saúde na uniformização de boas práticas a nível nacional, no desenvolvimento e implementação de normas, priorizando a segurança da medicação e do doente, de modo a reduzir significativamente os erros graves e evitáveis relacionados com os medicamentos. Uma das dificuldades é ter a lista de medicamentos do doente sempre atualizada pelo que seria bom poder utilizar “Portal do Doente” (registo de Saúde Eletrónico Português) para colocar essa lista, que poderia ser consultada e atualizada pelos diferentes profissionais de saúde.
O FH, como responsável pelo uso seguro, eficaz e ótimo dos medicamentos, deve desenvolver estratégias, diretrizes, planos e ferramentas para garantir a segurança da medicação, executar o acompanhamento farmacoterapêutico, reconciliação terapêutica, etc.

Palavras chave :

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